Cicloturismo pela Grécia

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Da Itália peguei o Ferry Boat em Brindisi, depois de nove horas estava atracando na Ilha de Kérkira ou Corfu, onde recomecei o cicloturismo agora pela Grécia.

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Esta etapa da viagem foi realmente incrível. A Grécia é admirável, a grande diferença cultural, as pessoas que não falam inglês, as paisagens, as muitas frutas por toda a estrada, o mar Egeo, era tudo de encher os olhos.

Desembarcando na ilha já comprei alguns mapas e verifiquei os pontos turísticos e os campings disponíveis.

Era de se impressionar a quantidade de frutas maduras pela estrada. Eram várias árvores carregadas com frutas caindo ao chão. Não pude resistir: começou com figo, depois maça verde, uva, framboesa, pera, ameixa roxa e romã. Foi praticamente uma feira.

Em Ipsos conheci uma família nada convencional. O Cris é um dinamarquês loiro de olhos azuis e a Samzinha sua esposa é negra e baixinha de Cabo Verde. A Miriam é a filha dinamarquesa e a Ema, a filhinha norte-americana e tem o Pablo mais velho que deve ser de Cabo Verde. A comunicação é uma salada, o que chama atenção é a filhinha que entende português mas responde em inglês.

retsina
Passei momentos muito agradáveis com esta família, mergulhando, passeios de barco e jantares.

Finalmente tomei o Ferry-Boat de Corfu para Igoumenítsa, na Grécia continental e comecei minha pedalada.

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Segui costeando para o sul até o túnel submerso para ilha de Lefkada, e tive que ser conduzido por van para o outro lado.
Logo na entrada do túnel, antes de acenar para a câmera já recebi um aviso por megafone para parar imediatamente e aguardar. Fui rebocado de novo pela polícia rodoviária. Desta vez sem stress, pois é normal, bicicleta simplesmente não passa pelo túnel.

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Muitas frutas pelo caminho para variar…ameixa roxa, maça verde e vermelha, uva vermelha e figo, lógico.

Pedalar pela Grécia é um presente dos deuses, tudo é incrível, muito diferente, paisagens lindas, o mar é gelado e cristalino, as montanhas são sempre muito íngremes e morros escarpados com muitas cabras e bodes.

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Algumas praias chamam atenção pela beleza deslumbrante, uma das mais famosas é a praia de Myrthos, simplesmente de tirar o fôlego.

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Apesar de toda esta viagem maravilhosa, aventuras e explorações, de vez em quando vem a tristeza e a solidão. Já passei a barreira psicológica dos seis meses viajando, é uma grande jornada, fora dos padrões, algo que sei que levarei para a vida toda como uma grande conquista mas…no momento só a solidão e a tristeza me acompanham.

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De kyparessia para Esparta, Peloponeso- Grécia

O que parecia ser uma pedalada tranquila pelo Peloponeso, com todos aqueles mapas comprados recentemente, ainda teria muitas surpresas me aguardando.
Parti de Kyparessia dia 21 de setembro de 2006 em direção à Kalamata. O vento está aumentando e as temperaturas diminuindo, sinal de que o outono está chegando. Parece que está tudo escrito em grego…

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Foi uma paisagem de montanha deslumbrante pelo interior do Peloponeso. Nos primeiros quilômetros pedalei com o Sigi, um alemão de 68 anos. Muitas pequenas vilas pelo caminho, cabras montanhesas, muitas subidas mas descidas também.

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Em Kalamata fiquei num camping quase todo deserto, além de mim apenas mais uma caravana. O outono chega e o pessoal parte.

Na manhã seguinte peguei meus mapas e parti confiante para Esparta, deixando a estrada principal e seguindo pelas montanhas, a contragosto do hospitaleiro do camping que dizia que tal rota era impossível. Não era o que dizia meu mapa novinho!

Na medida em que eu subia a serra, Kalamata ia ficando pequenininha, ao longe era apenas um pontinho na paisagem montnahosa.
A estrada não tinha nenhuma placa que não seja em grego e as pessoas não falam inglês.
Eu sabia pronunciar algumas poucas palavras e curtas frases em grego e tudo se resumia a referências de direção e caminho.
Lá pelas 14h30´caiu uma chuva cinematográfica e tive sorte por encontrar abrigo num arco de pedra e até fazer um café.

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Fui em direção a Rintomo e dei de cara com o fim da estrada! Literalmente. Ali só passava à cavalo ou à pé. Tive que voltar bastante até a placa “Sparti”. Uma paisagem inóspita, estrada totalmente deserta, uma descida vertiginosa e de repente, vejo o mar! Já estava perdido em meio a tantas montanhas…

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Descendo mais um pouco pedi informação numa vila semi abandonada, usando muito mímica e deduções, ninguém fala inglês lógico. compreendi tinha dado a volta no morro!
Sem água, sem comida nem mercado e entardecendo…

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Foi quando avistei uma árvore de maças verdes. Quando peguei uma do pé vi que não era maça, dei um corte com a unha, não tinha cheiro de nada. Já meio sem paciência rachei uma jogando ao chão e tive uma surpresa: nozes! Colhi várias da árvore e segui viagem. Peguei água na bica e próximo tinha uva verde e figo. Pronto, estava arrumado o jantar.

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uva-verde

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Estou acampado nas montanhas num silencio mágico que meus ouvidos danificados pelo rock´n´roll muitas vezes não conseguem captar por completo. É como se ouvisse o nada, numa paisagem bucólica de outono, no meio das montanhas e com o mar ao longe.

acampamento-peloponeso-caminho-esparta

Na manhã seguinte acordei com o estampido assustador de um rifle ecoando pelo vale. Abri o zíper da barraca e avistei ao longe três cães e um indivíduo armado.
Vou ser morto! Estas nozes sairam caras!- pensei, meio atordoado e grogue, depois de uma noite gélida e mal dormida: eram apenas caçadores. É nozes! Aventura continua pelo Peloponeso!

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Voltei para Kalamata de onde tinha partido e de lá segui para Esparta pela auto estrada, muito bonita e sinuosa também. Fiz uma escala de uma noite em Mistras, onde tem um castelo medieval e nada de internet…

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mistras-castelo-medieval

cicloturismo-estrada-para-esparta

Chegar pedalando em Esparta foi incrível! A primeira visão da cidade, do alto da montanha foi um pouco decepcionante, era pequena, nada daquilo que imaginava.

esparta-vista-da-montanhaFui ao mecânico e troquei uns raios.
Liguei para um amigo do Hospitality Club, o Panos. Nos encontramos na praça, ele também estava de bicicleta.
Pedalamos pelos pontos turísticos de Esparta e caminhamos por duas trilhas para dois monastérios nas montanhas que circundavam a região. Panos é médico e eu tive sorte dele estar com a tarde livre.

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mosteiro-esparta-montanhas

mosteiro-esparta

panos-e-giovani-montanha-esparta

De noite tomamos algumas cervejas e gravamos algumas frases em grego para eu usar em minhas peregrinações pela República Helênica.
Nos despedimos, voltei ao camping, tomei uma ducha e fui ao centro jantar num restaurante para variar.
Patê de berinjela (preferia inteira mesmo), assado de porco com batatas e uma garrafa de vinho local. Não deu outra, dor de cabeça de noite…

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Na manhã seguinte me encontrei com o Panos no centro de Esparta ,ele me deu dois sucos de laranja com fabricação local, mapas e um chá da montanha. Nos despedimos e peguei estrada em direção Tripoli.

Depois de 30km saí da estrada principal em direção leste, para o mar, sentido Karies. Muitas subidas e uma paisagem deslumbrante. Quando começaram as descidas em direção ao mar fui deixando as montanhas para trás e sentindo a temperatura aumentando gradativamente. Fiquei acampado em Paralio Astros.

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Esta estrutura de camping era um luxo! Tinha até mesa, cadeira e almofadas…

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Em Micenas fiquei impressionado com o sítio arquelógico. Terra de Agamenon, comandante da esquadra Grega na Guerra de Tróia.

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Tesouro-de-Atreus-micenas

Estes seriam meus últimos dias até a chegada em Atenas, de onde faria somente alguns passeios e pequenos trechos.
Estava bastante ansioso e ao mesmo tempo muito feliz, depois de todos esses meses pedalando pela Europa, muitas experiências e aventuras.
Pedalei em direção ao estreito de Corinto e estou no camping Glaros, cinco quilômetros depois de Agios Theodori.

estreito-de-corinto

01 de outubro, domingão, ATENAS!!!
Pedalada difícil com a bike desregulada, mais um raio quebrado, as marchas não entrando direito. A bicicleta já foi muito longe nesta viagem, o equipamento clama por uma revisão geral. Talvez pela peregrinação estar chegando a um fim ou simplesmente desgastes das peças, o caso é que está tudo se desmantelando…

Parei no meio da estrada para pedir informação e o senhor falava espanhol e até português…

Chegando em Atenas tive a impressionate visão do Partenon. Depois de uma subida numa avenida bem movimentada avistei uma fachada bem conhecida no alto de uma colina, era o monumento mais famoso da Grécia, o Partenon! Foram momentos de muita nostalgia, eu sabia que este era o fim. Teria mais um mês pela frente de viagens e aventuras mas as grandes pedaladas finalmente chegaram ao fim!

partenon

Segui logo para o Albergue da Juventude e…surpresa, o cara falava português, um grego casado com uma carioca.
Me instalei e fui votar. Depois disso tudo seria um prazer exercer meu direito de cidadão brasileiro, aqui em Atenas, berço da democracia. Inútil, vou ter que justificar. Em pleno sec.XXI não tem esta possibilidade mesmo eu estando em dia com todos meus documentos.

Pedalando pelo centro e percebi que domingo a entrada para ver as ruínas era de graça! De noite dormi numa cama para variar.

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Em Atenas tomei algumas providências: renovei meu passaporte, comprei passagem para a ilha de Andros, doze euros e fui à embaixada egípcia para dar entrada no meu visto, vinte e cindo euros.

Em Andros não tinha albergue e me sugeriram acampar na praia mesmo. Foi como oferecer banana para macaco. Este seria o último acampamento da viagem.

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De Andros segui de Ferry Boat para a ilha de Tinos.
No porto fui recebido por uma legião de guias. Estava a caminho do camping quando um guia me abordou e propos uma pousada com TV/AC/Frigo/WC privado que estava no guia Lonely Planet por dez euros. Baixa temporada!

Paradoxos: Numa noite camping selvagem, na outra, pousada Lonely Planet.
Referências: estes são meus últimos 17 dias de pedalada. Parece pouco mas passei este mesmo tempo inteminável no frio do norte da França; em menos deste tempo fiz o Caminho de Santiago de Compostela; 17 dias foi o que passei no maravilhoso sul da França.
Portanto 17 dias pode ser pouco ou uma eternidade.

Tenho uma mistura de alívio em voltar para casa e ao mesmo tempo é o fim da viagem maravilhosa que marcará minha vida para sempre.

Nas muitas caminhadas pela Ilha de Tinos fui pensando o que um grande amigo me disse: “Você vai voltar um ser humano diferente”. É verdade. O diferente se resume em duas coisas: “Paciência e tranquilidade”. Paciência para deixar que as coisas aconteçam no seu devido tempo e tranquilidade para se fazer todas as coisas com paciência.

Estou em Tinos, no meio do Mar Egeo, há 15 dias. O velocímetro marcando quase 9000 km, um passado de aventuras e estórias para contar.

Experiências vividas, pessoas que cruzaram meu caminho e eu o delas. Um maluco viajando sozinho numa bicicleta carregada de bugiganga mexe com o transeunte. O que este maluco quer? De onde veio e para onde vai? Abala a concepção de liberdade das pessoas.O que me aguarda? Para onde vou?

Voltei para Atenas e peguei meu visa para o Egito, comprei a passagem para o Cairo, a estátua da Afrodite para minha irmã e um jogo de xadrez.

De manhã desmontei e empacotei a Pérola Negra, guerreira de todas as horas, foi minha companheira nesta viagem, muitas aventuras, estórias e pessoas.

Pessoas que só pedi uma informação. Pessoas que cruzei pelo caminho e me parabenizaram pela façanha. Pessoas que convivi algumas horas. Pessoas que convivi alguns dias. Crianças com olhos arregalados de surpresa com algo que nunca viram. Idosos que me olhavam nostálgicos lembrando de seus tempos de juventude. Pessoas que em meu coração guardarei lembranças para o resto da vida. Pessoas, pessoas, pessoas. Esta é a receita para se construir uma vida.

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