Velejando pelo Brasil

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Esta é a estória da primeira vez que velejei. Foram setenta e cinco dias, de agosto à novembro de 2007, entre Florianópolis e Fernando de Noronha. A embarcação é o Gaia, um veleiro Colin Archer 37, de 12 metros. É um projeto Norueguês feito para aguentar as porradas do Mar do Norte, usado para fazer resgate quando mais nenhuma embarcação está no mar.

veleiro-gaia-colin-archer-37 Veleiro com casco de madeira, uma quilha longa (inteira) de 3 toneladas (só a quilha é o peso de um barco moderno do mesmo tamanho). Todo rústico, é um tipo de Toyota Bandeirante dos barcos.

tripulacao veleiro gaia antes da partidaA tripulação é o Beto, o comandante, engenheiro ambiental e economista; o Sergio, dentista; o Andrú, professor de Jiu Jitsu e o mais normalzinho que sou eu, o Giovani, dentista que largou o consultório para cair no mundo.

Antes da partida tivemos uma reunião com nosso querido mestre Luigui Faraci, que Deus o tenha e que esteja olhando por todos nós. Luigui nos brindou com sua presença e nos deu os últimos conselhos. Velho lobo do mar deixou muitas saudades.

veleiro gaia reuniao pré embarque

A viagem iria ser longa e finalmente levamos todas as compras a bordo para zarparmos!

provisões para viagem

dieta saudavel veleiro gaia

Saímos de Florianópolis dia 20 de agosto de 2007. Segunda-feira braba! Foi um mar violento logo de cara, um tal de nivel 7 na Escala Beaufort (vai até nível 12), “vento forte com rajadas” de até 60 km/h e ondas de 3 a 4 metros. Tanto é que apelidamos de mar em fúria.

veleiro gaia saida de florianopolis

Eu achei que aquilo iria ser o normal, já estava me apavorando mas só foi este dia. Deixamos para terminar a montagem de algumas coisas durante a viagem pois estava ficando muito tarde e perderíamos a regata Refeno.
Em meio à todo este mar agitado me recordo de ver a bússola no cockpit, solta, batendo de um lado para o outro, algo meio apavorante.
Tivemos que parar em Porto Belo pelas condições do tempo. Controlar um veleiro de nove toneladas num mar desses é brinquedo de gente grande, uma sensação muito louca.

veleiro gaia velejando adernado giovani frisene

levantando-vela-mestre-giovani-frisene-veleiro-gaia

Ficamos duas noites e em Porto Belo e partimos em direção a mar aberto, fora da rota dos barcos pesqueiros. Foram quatro dias e três noites sem parar, uma sensação muito esquisita por não ver terra.
Tivemos alguns problemas como vazamento de do tanque, o fogão é uma peça de museu (será substituído aqui em Santos), falta de vento, muito enjoo, problemas de fígado etc Paramos em Santos para dar um tempo para a cabeça.

motor-rabugento-veleiro-gaia

giovani frisene cozinheiro veleiro gaia

Quando desembarquei parecia que estava bêbado, não conseguia andar em linha reta, uma sensação de mareado o tempo todo.

Velejando de Santos à Abrolhos passando por Guarapari.

Passamos três noites no clube náutico de Santos nos recuperando da semana cansativa de vela. Ajustamos o que faltava no veleiro e finalmente partimos. Tive a sorte de fazer o primeiro turno de leme na saída do movimentadíssimo porto de Santos.

giovani-frisene-saida-porto-de-santos-veleiro-gaia

Fiquei em pé para melhor visualização, controlando a cana de leme com o pé. Infelizmente pela falta de vento o motor foi ligado novamente. Motor e barco à vela não combinam. Assim como prazo e data para chegada, no nosso caso temos que estar em Recife para a regata.

bote de apoio indo para terra
Nosso bote de apoio para irmos em terra.

Desistimos de parar no Rio de Janeiro por falta de tempo e seguimos direto para Búzios, ancoramos na praia dos Ossos, um visual incrível!cozinha veleiro gaia giovani frisene andru sergioEstes momentos de parada e descanso é que fazem a viagem valer a pena, desembarcar, confraternizar, jantar a bordo com o barco parado, passeio na orla da praia, isso vale ouro, a tripulação agradece.

Seguimos rumo Cabo de São Tomé, tomamos alguns cuidados com bancos de areia e conseguimos finalmente desligar o motor e chegar velejando em Guarapari.
Como a cidade não tem iate clube atracamos num trapiche próximo à bomba de diesel, tomamos um banho quente no hotel anexo, abortamos a ideia de fazer feijão e partimos para uma pizza no centro da cidade.

guarapari veleiro gaia atracado posto dino

veleiro gaia atracado guarapari posto dinoNa saída de Guarapari fomos avisados de uma ressaca, saímos com forte chuva e ondas de dois metros, vento leste, levantamos as velas e calçamos com o motor. Foi assim até Vitória.veleiro-gaia-colina-archer-37

veleiro gaia vitoria

Ancoragem em Abrolhos com o veleiro Gaia Colin Archer 37.

Em Abrolhos demos um mergulho em meio aos corais cérebro, endêmicos da região, vimos baleias jubarte, desembarcamos na ilha Siriba e recebemos visitas para o almoço.

mergulho em abrolhos giovani frisene

mergulho nas profundezas de noronha

veleiro gaia e baleia jubarte ao fundo

abrolhos tripulacao veleiro gaia 01

almoco veleiro gaia

Um pouca antes de partirmos avistamos o barco do Gusmão próximo de uma das ilhas, almoçamos juntos a bordo e ainda tomamos uma cerva gelada! Fez toda a diferença! Falta de geladeira e banheiro a bordo…cerveja gelada é luxo!

abrolhos almoco gusmao

Rumo Salvador da Bahia, como dizem os estrangeiros.

Saímos rumo à Salvador. A falta de privada à bordo ficou um assunto desagradável e extremamente necessário.

veleiro gaia banheiro

Nosso banheiro era na estrutura do leme de vento que não estava instalado. Quando o barco estava navegando tínhamos que vestir o colete e nos clipar em algum ponto para segurança. Quando atracávamos utilizávamos a estrutura das marinas e clubes.

Tínhamos passado por uma noite de “Aula de Calmaria”. O barco praticamente á deriva, sem ventos. Meu turno foi de madrugada. Amarrei o leme e fiquei olhando as estrelas, verificando de vez em quando a bússola e a presença de barcos por perto.por do sol veleiro gaia

Na noite seguinte da calmaria começou um vento muito forte, que só foi aumentando. Meu turno era o começo do vento forte, fui dormir e seguiram-se mais dois no leme. Lá pelas tantas da madrugada o barco balançava muito, de um lado para o outro, coisas batendo, as velas panejando, os cabos esticando e rugindo. Eu deitado procurava dormir e estava no meio de um pesadelo quando um estouro seco me acordou: BoW!

turno de leme noturno andru
Turno de leme noturno Andru

Aterrorizante! O barco levantou, tive a nítida sensação de que batemos em alguma coisa. Estava tudo em alvoroço, coisas voando para todos os lados, pratos, talheres, copos, tudo ficou revirado…Levantei assustado -onde agente tá? Batemos em alguma coisa?
-No meio do mar!- respondeu o Beto, rindo, me vendo meio grogue de sono ainda… Sorte que o barco estava inclinado para o lado oposto da minha cama e eu estava dormindo na parte de baixo, senão teria batido a cabeça na primeira viga de madeira de lei que fica a dois palmos e meio do meu nariz.
No fim não era nada de lombada e sim uma onda gigante que veio de lado no Gaia, alagou o cock pit e queimou a bússola.

turno de leme veleiro gaia giovani frisene

Enfim conseguimos chegar à Salvador. Era muita pretensão fazer de uma só vez Florianópolis- Salvador. Cinco dias direto no mar já dá uma sensação de que não existe nada mais além daquilo, e uma vontade grande de ver terra, gente, padaria, essas coisas.veleiro gaia atracado

Antes da tripulação zarpar para Itaparica fui deixado para fazer a prova de capitão amador na Capitania dos Portos de Salvador, em meio aos barcos da regata Volvo Ocean Race. Foi emocionante chegar de veleiro para fazer a prova! O resultado foi enviado para Santa Catarina: aprovado!

salvador desembarque giovani frisene prova capitao amador

Comemoração do meu aniversário em Itaparica a bordo do Gaia.

Em Itaparica comemorei meu aniversário de 34 anos a bordo do Gaia, juntamente com os velejadores que estavam presentes na baia e meu primo Rômulo, que trabalhava num resort próximo.

aniversario giovani frisene veleiro gaia

Antes de zarpar de Salvador resolvi comer um acarajé, uma porção de mandioca com carne seca e tomar uma cerveja. Bastou para enjoar o dia inteiro.
Hoje levantamos a ginnaker, uma vela mais fina que a genoa. Estava preparando para caçar a adriça da ginnaker quando soltei o cabo do punho, foi arrebatador. A força da vela cheia pelo vento me levantou uns dois metros e fui arremessado de encontro aos brandais, juntei as pernas e me agarrei neles. Fui puxando o cabo e caindo no convés devagar. Foi um susto! De noite acordei enjoado de novo e vomitei.

Essas pernadas muito longas no mar, várias noites navegando sem parar são muito cansativas. O barco torna-se um espaço limitadíssimo. A falta de um bimini ou uma cobertura deixa todos necessariamente no sol de rachar quando se está no leme. A única sombra no sol de meio dia é dentro do barco, onde não é muito agradável nesta hora do dia.
A falta de liberdade é um paradoxo. Num veleiro totalmente livre indo ao sabor dos ventos ficamos presos num espaço de doze metros.turno de leme sol escaldante veleiro gaia giovani frisene

Refeno 2007- Regata Recife- Noronha.

Enfim chegamos à Recife depois de uma noite péssima de vento em popa com o barco balançando muito. O ditado que diz “de vento em popa” na realidade se refere aos primórdios da navegação à vela onde só se navegava com vento em popa. Com todas aquelas velas quadradas não devia balançar tanto mas num barco com velas triangulares a coisa é bem diferente.
Sendo assim num veleiro moderno, indo de vento em popa não é lá muito bom. A melhor velejada é com uma orça folgada, isto é, barco navegando nuns cinquenta graus com vento contra ou num mesmo ângulo com vento de popa, mas não completamente empopado!

refeno 2007 marina lotada

Iate Clube de Recife lotada para a Regata para Fernando de Noronha!

veleiro floripa e veleiro gaia amadrinhados

Ficamos amadrinhados no veleiro Floripa. Foi uma grande coincidência…no ano seguinte fui convidado pela tripulação do Floripa para participar da última perna da volta à América do Sul, me juntei à tripulação em Valparaíso no Chile e velejamos os canais chilenos e Estreito de Magalhães até Florianópolis.

refeno 2007 tripulacao veleiro gaia

 

A largada para a regata foi tensa é claro, muita expectativa e apreensão. Os barcos fazem um desfile em frente ao marco zero da cidade para o povo curioso assistir. Tivemos um problema de linguística…Gaia para o pessoal de Recife é galha, galhada ou corno. Foi um desprazer para os tripulantes e um deleite para a platéia ao ouvir o nome do nosso veleiro, tão guerreiro e tão debochado.

refeno 2007 recife

refeno 2007 veleiro gaiaO vento durante a regata foi forte e conseguimos o terceiro lugar na categoria. Dizem que para chamar os ventos deve-se raspar a faca no mastro ou assobiar…mas também que podem vir ventos tão fortes que se arrependa disso…

refeno-2007-giovani-chamando-vento

giovani-subindo-vela-detalhe
Subindo a vela mestra.

refeno-2007-gaia

refeno 2007

Velejando de volta para casa, rumo sul do Brasil.

Na volta tivemos a Regata Noronha- Natal. A marinha reportava no radio aviso aos navegantes de mar bravio. Na entrada do canal quebrou um moitão e o amantilho, que é o cabo preso ao tope do mastro para sustentar a retranca evitando que caia no convés.
Em Natal infelizmente tivemos o agravamento de uma situação desagradável, a desavença entre o comandante Beto e o tripulante Sérgio, que acabou desembarcando. Ficamos apenas em três tripulantes na volta para o sul.

tripulação veleiro gaia natal
Última foto com todos os tripulantes juntos…

Logo na saída de Natal já começaram os problemas: quebrou a cana de leme justamente quando um grande cargueiro estava em rota de colisão. Fizemos uma manobra rápida e instalamos um leme de fortuna, isto é, um leme provisório.

O pesado veleiro Gaia foi aos poucos singrando nossa rota de volta. Agora os turnos de leme eram divididos em apenas três pessoas e passávamos mais horas nesta função. O Gaia não possuía bimini: sem nenhuma sombra ficávamos no sol escaldante do meio dia. Eu ficava de camisa de manga comprida e usava um chapéu de palha grande.

Estamos os três muito ansiosos para a chegada. A viagem já se tornou cansativa e estamos mais interessados em voltar para nossas vidas em terra. A falta de vento e o uso do barulhento motor nos cansa nesta etapa final.

veleiro gaia colin archer 37 beto

Velejar nestas condições se torna desagradável, a pressa para a chegada, a expectativa de avistar terra e viver em casa.
A arte de velejar está na paciência, em esperar pelo vento, em seguir as correntes, se adaptar às situações e não o contrário.

Proa Florianópolis.
O diesel está acabando e temos apenas mais dez horas de motor. Um vento fraco deu lugar à calmaria predominante. No meio do meu turno o vento começou a apertar, todos comemorávamos, fazíamos uma orça apertada.
No fim do meu turno desci e preparei o almoço: macarrão com atum e milho. Com o leme amarrado, almoçamos os três dentro do barco, rindo muito de toda aquela situação de reta final.

alomoço a bordoO mar foi crescendo e a chuva chegou. Era só o começo da frente fria se aproximando. O vento aumentou ainda mais, o mar estava encrespando e as coisas ficando piores.
Depois das seis da tarde, o Beto achou melhor trocar a genoa pela a buja, uma vela menor de proa para tempestade, numa manobra heróica e arriscada.
A proa do barco subia e descia entrando quase a metade na água, com o Beto sentado no gurupés. A escadinha presa no life line entrava inteira na água.

tempestade veleiro colin archer andruCom a tempestade estava difícil içar a buja. Apesar do Beto estar com cinto de segurança não podia deixar de imaginar uma situação de homem ao mar! Que faria? Comecei a especular quais seriam meus primeiros movimentos: marcaria um ponto no GPS, arremessaria a bóia salva vidas junto com a vara homem ao mar, assumiríamos um rumo contrário ao nosso, um de nós não tiraria os olhos do náufrago e os dois rezariam muito.

Comecei meu turno oito da noite, com o leme amarrado e a chuva caindo sem parar, sempre verificando se a proa estava livre de barcos e bóias de pesca. O vento rondou para sudoeste e estava nos jogando de encontro à terra, totalmente fora do rumo Florianópolis.

navegacao em equipe veleiro gaia giovani friseneDesamarrei o leme e assumimos rumo Porto Belo. O Beto estava nitidamente abatido depois do estresse da manobra de troca de vela de proa e às vinte e duas horas decidi fazer seu turno e ele foi dormir.

Onze da noite o Andrú levantou, se equipou com roupas impermeáveis e ficamos conversando até meia noite, quando ele assumiu. Entrei para o barco mas mantive meu anorak, capa e bota, tudo molhado, em caso de alguma manobra de emergência.
Já não havia mais turno e sim um comprometimento muito grande com o bem estar geral, todos estavam ali por uma causa e sair daquela tempestade era tudo o que queríamos.
Às duas e meia da manhã o Andrú me chamou tremendo de frio. Levantei e assumi o leme.

Minha estratégia de dormir com a roupa molhada foi péssima. O calor do corpo tinha aquecido e secado um pouco a roupa e agora eu congelava lá fora.
Levei um pacote de bolacha, comecei a comer e me concentrar, mentalizava a ancoragem que estava próxima, que tudo iria terminar dentro de algumas horas. Logo o Beto saiu e pronto para as operações de ancoragem.

Ficamos conversando e rindo muito, falávamos sobre planos de saúde e nosso estilo de vida.
Dentro de quatro milhas da costa já podia sentir o maravilhoso cheiro de terra, vindo com aquele vento oeste. A chuva tinha diminuído bastante, era apenas uma garoa em nossos rostos felizes pelo desfecho breve.
A ancoragem foi muito simples, o Beto desceu a vela grande e baixou ancora. Paramos no Boqueirão, logo depois do Caixa d`áço, em Porto Belo.
Descemos para dentro do barco, o Andrú já estava acordado, nos cumprimentamos e nos felicitamos por termos conseguido chegar tão bem.
Este foi nosso pior mar, ou para um aprendiz de marinheiro ávido por novas experiências, o melhor!

colin archer 37 gaia giovani frisene

colin archer 37 gaia

catraca veleiro detalhe

colin archer 37 gaia por do sol

03 de Novembro de 2007
Na manhã seguinte levantamos âncora e seguimos para a última perna rumo casa!
Chegamos enfim em terra, na Ilha de Florianópolis.

veleiro gaia chegando em florianopolisTive a honra de fazer o último turno de leme, passando por debaixo das duas pontes, a ponte Hercílio Luz e a nova, conduzindo o barco entre os pilares. A impressão é que vai arrancar o mastro. Desembarcamos no iate clube Veleiros da Ilha e fomos direto comemorar com uma cerveja gelada.

veleiro gaia chegada no clube veleiros da ilha

É bom estar em terra de novo, em casa. Coisas simples tomam nova forma: geladeira, colchão, poltrona, TV, controle remoto, som, chuveiro, tudo é um luxo…
O mar vai deixar saudades. Outras viagens virão, mas a primeira agente nunca esquece…

cozinha veleiro gaia sergio
Grande Sérgio guerreiro fez muita falta na volta!
giovani frisene diário
Giovani num dos momentos escrevendo o diário para eternizar estes momentos no mar.

Interior do veleiro Gaia, Colin Archer 37.

O interior simples do veleiro Gaia, Colin Archer 37, nossa casa por quase 3 meses.

interior gaia 03

interior gaia 02

interior gaia 01

Grandes momentos na velejada com baleias e golfinhos nos acompanhando…

golfinhos na proa do veleiro gaia

baleia-jubarte-na-proa-veleiro-gaia

Refeição em família Gaia, com a visita surpresa do Nando, filho do Sérgio

almoco veleiro gaia visita nando

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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